Via-se no alto do céu uma nuvem imóvel. Ali estava de sentinela para evitar que deslizasse o mais insignificante raio de sol para a terra. E que os habitantes da terra, os homens, se tinham tornado novamente maus, e, para castigo de seus crimes e pecados, Deus resolvera privá-los durante quatorze dias do calor e da luz do sol.
A tal nuvem era de cor cinza-prateada, vaporosa e fina, e tinha o feitio de um elegante veado. Disso ela ficava muito vaidosa, sobretudo quando comparava suas formas com as formas grosseiras de suas colegas, as outras nuvens, com seus ventres inchados que pareciam cúpulas de igreja, e suas trombas de elefante.
Pois bem: transcorridos os quatorze dias, ela teve de voltar para o seu lar, a casa das nuvens, e ali esperar que a chamassem para fazer nova guarda. Pelo caminho se encontrou casualmente com uma calhandra que, como fadas as calhandras, estava alegre e cantava uma canção muito divertida, lá em cima, na solidão do ar.
- Como é possível - disse a nuvem - que alguém cante tão alegremente, se a vida é tão atrozmente aborrecida?