Foi à cena na abertura do Ginásio Dramático, em 12 de abril de 1855.
Imitação do francês
PERSONAGENS
ADRIANO GENIPAPO, jovem professor de música
PANTALEÃO, amigo taberneiro
FELISBERTO, alfaiate
ERNESTO, amigo de Adriano
CELESTINA
BEATRIZ, criada de Adriano
Dois amigos de Adriano
A cena passa-se no Rio de Janeiro
ATO PRIMEIRO
O teatro representa uma sala modestamente ornada; uma mesa com gavetas; um piano, um violão, papéis de música, etc.; uma porta ao fundo abrindo para a rua.
CENA PRIMEIRA
BEATRIZ (Em pé, engraxando um botim) - eis-me aqui pagando os meus pecados!... eu sou uma espécie de verbi-gratia das mudanças desta vida. No tempo do vice-rei chamavam-me a nenê da rua das Flores; quando o rei chegou, já eu era conhecida pela formosa Beatriz: depois que me apareceu o primeiro cabelinho branco, tiveram o desaforo de tratar-me por tia Beatriz; felizmente ainda a sorte me deparou um soldado inválido que quis casar comigo; mas veio a febre amarela, que deu baixa eterna ao meu querido Pancrácio, e eu fiquei viúva, e viúva sem filha, e sem vintém! Não tive remédio senão recorrer aos Diários, e anunciar uma criada para homem solteiro ou viúvo: tive a esperança de me tornar meia-dona de casa; mas por fim de contas fiquei simples criada, e criada muito ordinária: isto é, criada de um músico!... Eis aqui portanto a bota de um músico engraxada pelas mãos da formosa Beatriz!... Oh! Eu só conheço três coisas tão desprezíveis como as botas de um músico: uma barretina de soldado, um capote de estudante, e uma casaca de meirinho! E eu sempre a engraxar estas botas, botas de um músico, de um músico que tem a pouca vergonha de me estar a dever cinco patacas de despesas miúdas!... (Canta)
No tempo da ventura
Chamavam-me formosa;
E agora nem airosa
Alguém, que eu sou, me diz!...
Engraxa, engraxa as botas,
Engraxa, Beatriz!
Meus olhos, minhas faces
Cobriam de louvores;
E agora... adeus amores,
Já torcem-me o nariz!