AO LEITOR
D'un pinceau delicat l'artifice agreable
Du plus hideux object fait un object fait aimable
Boileau
No intuito de perpetuar estes versos de um poeta nosso bem conhecido, os fazemos publicar pela imprensa, que, sem dúvida pode salvar do naufrágio do esquecimento poesias tão excelentes em seu gênero, e cuja perpetuidade alguns manuscritos, por aí dispersos e raros, não podem garantir do tempo.
A lira do poeta mineiro tem todas as cordas; ele a sabe ferir em todos os tons e ritmos diferentes com mão de mestre.
Estes poemas podem se chamar erótico-cômicos. Quando B.G. escrevia estes versos inimitáveis, sua musa estava de veia para fazer rir, e é sabido, que para fazer rir são precisos talentos mais elevados do que para fazer chorar.
Estes versos não são dedicados às moças e aos meninos. Eles podem ser lidos e apreciados pelas pessoas sérias, que os encarecem pelo lado poético e cômico, sem ofensa da moralidade e nem tão pouco das consciências pudicas e delicadas.
Repugnam-nos os contos obscenos e imundos, quando não têm o perfume da poesia; esta, porém, encontrará aceno e acolhimento na classe dos leitores de um gosto delicado e no juízo destes será um florão de mais juntado à coroa de poeta de que B.G. tem sabido conquistar à força de seu gênio.
Ouro Preto, 7 de maio de 1875
DISPARATES RIMADOS
Quando as fadas do ostracismo,
Embrulhadas num lençol,
Cantavam em si bemol
As trovas do paroxismo,
Veio dos fundos do abismo
Um fantasma de alabastro
E arvorou no grande mastro
Quatro panos de toicinho,
Que encontrara no caminho
Da casa do João de Castro.
Nas janelas do destino,
Quatro meninos de rabo
Num só dia deram cabo
Das costelas de um supino.
Por tamanho desatino,
Mandou o Rei dos Amores
Que se tocassem tambores
No alto das chaminés
E ninguém pusesse os pés
Lá dentro dos bastidores.
Mas este caso nefando
Teve sua nobre origem
Em uma fatal vertigem
Do famoso conde Orlando.
Por isso, de vez em quando,
Ao sopro do vento sul,
Vem surgindo de um paul
O gentil Dalai-lama,
Atraído pela fama
De uma filha de Irmensul.
Corre também a notícia
Que o Rei Mouro, desta feita,
Vai fazer grande colheita
De matéria vitalícia.
Seja-lhe a sorte propícia,
É o que mais lhe desejo.
Portanto, sem grande pejo,
Pelo tope das montanhas,
Andam de noite as aranhas
Comendo cascas de queijo.