Este título de Papéis avulsos parece negar ao livro uma certa unidade;
faz crer que o autor coligiu vários escritos de ordem diversa para o fim
de os não perder. A verdade é essa, sem ser bem essa. Avulsos são
eles, mas não vieram para aqui como passageiros, que acertam de
entrar na mesma hospedaria. São pessoas de uma só família, que a
obrigação do pai fez sentar à mesma mesa.
Quanto ao gênero deles, não sei que diga que não seja inútil. O livro
está nas mãos do leitor. Direi somente, que se há aqui páginas que
parecem meros contos, e outras que o não são, defendo-me das
segundas com dizer que os leitores das outras podem achar nelas algum
interesse, e das primeiras defendo-me com São João e Diderot. O
evangelista, descrevendo a famosa besta apocalíptica, acrescentava
(XVII, 9): "E aqui há sentido, que tem sabedoria." Menos a sabedoria,
cubro-me com aquela palavra. Quanto a Diderot, ninguém ignora que
ele, não só escrevia contos, e alguns deliciosos, mas até aconselhava a
um amigo que os escrevesse também. E eis a razão do enciclopedista: é
que quando se faz um conto, o espírito fica alegre, o tempo escoa-se, e
o conto da vida acaba, sem a gente dar por isso.
Deste modo, venha donde vier o reproche, espero que daí mesmo virá a
absolvição.