Há dez anos!... sim... dez anos!...
Como resvala o tempo sobre a face da terra?...
Éramos sempre cinco, - alguma vez sete:
O mavioso rouxinol das Primaveras.
O melífluo cantor das Esperanças.
O inspirado autor das Tentativas.
O obscuro escritor destas verdades.
O quinto era um menino... uma verdadeira criança: não tinha nome, e posto que hoje todos lho conheçam, não me convém a mim dizê-lo neste lugar, e tão cedo.
II
Pago o quotidiano tributo à existência material; satisfeitos os deveres de cada profissão, a palestra literária nos reunia na faceira e tranqüila salinha do meu escritório...
Ali, - horas inteiras, - alheios às lutas do mundo, conchegados nos lugares e nas afeições, levitas do mesmo culto, filhos dos mesmos pais - a pobreza e o trabalho, - em derredor do altar do nosso templo - a mesa do estudo... falávamos de Deus, de amor, de sonhos; conversávamos música, pintura, poesia !...
Ali depúnhamos o fruto das lucubrações* da véspera, e na singela festa das nossas crenças, novas inspirações bebíamos para os trabalhos do seguinte dia. Era um contínuo deslizar de ameníssimos momentos; era um suave fugir das murmurações dos profanos; era enfim um dulcíssimo viver nas regiões da fantasia!... E foi esse o berço das Primaveras, das Tentativas, das Crisálidas e das Efêmeras, e foi dali que irradiaram os nomes de Casimiro de Abreu, de Macedinho, de Gonçalves Braga, e com esplêndido fulgor o de Machado de Assis!
A morte e o tempo derribaram o altar, e dispersaram os levitas. Do templo só resta o chão em que se ergueu; e dos amigos só ficaram dois... dois para guardar, como Vestais severas, o fogo sagrado das tradições daqueles dias, e para resumir no profundo afeto que os liga, o laço que tão fortemente estreitava os cinco.
E no instante em que este livro chegar às mãos do primeiro leitor, as campas deles, - diz-mo o coração, - se entreabrirão para receber o saudoso suspiro dos irmãos, e um raio simpático da auréola do poeta!