Este alfarrábio, não o devo ao meu velho cronista do Passeio Público. É, como se disse no prólogo, uma escavação dos tempos escolásticos.
Tem ele porém, se me não engano, o mesmo sabor de antiguidade que os outros, e ao folheá-lo estou que o leitor há de sentir o bafio de velhice, que respira das cousas por muito tempo guardadas.
Para alguns esse mofo literário é desagradável. Há porém antiquários que acham particular encanto nestas exsudações do passado que ressumam dos velhos monumentos e dos velhos livros.
Rio de Janeiro, dezembro de 1872.
PRIMEIRA PARTE
A ALMA PENADA
Triste irrisão é a glória . Quantos engenhos sublimes , criados para as arrojadas concepções , que ficam aí tolhidos pelo estalão do viver banal , senão sepultos em vida na indiferença , quando não é no desprezo das turbas ?
Também quanta ralé , feita para patinhar no pó, que se ala as eminências , insuflada pelos parvos , e se apavora com as galas da celebridade?
E dizer que homens de são juízo labutam ou porfiam após esse fogo fátuo, e deslumbram-se a ponto de esquecerem afetos e bens, sacrificados em má hora à ilusão falaz!
Lá volvem os anos; e um dia vem à flor da terra o crânio que foi um poeta , ou um herói . Quem se importa com o sobejo dos vermes ? É um pouco de cal e nada mais . Não tarda que a pata do homem ou do bruto passando por aí triture esse pó , a que animou outrora o sopro de Deus , mens divinior.
O autor do Diário do Lázaro foi um de tantos engenhos, atados a grilheta da miséria Poeta desconhecido, enquanto a sua alma inspirada se derramava em ânsias e prantos, o bestunto de muito zote agaloado lá se estava enfunando com os aplausos, furtados à virtude e saber.
Foi há muito tempo .
Era eu estudante na academia de Olinda. Tinha então dezenove anos, e sentia minhas quedas para a poesia , mas pela poesia plebéia, em prosa estirada , que isso de verso é cousa com que não se conformava o meu espírito. Vão lá medir o pensamento , rimar as paixões ?
Muitas vezes sucedia-me nas vigílias do estudo apanhar o eu em flagrante delito de literatura , a idear romances e fantasiar dramas, enquanto lá o outro , o estudante de carne e osso , tressuava às voltas com o Corpus Juris Civilis.
Qual é a alma que nas primeiras expansões da vida , a dilatar-se pelos largos horizontes desta terra do Brasil; a embeber-se nas ondas de luz que imergem essa porção mimosa da criação ; a coar-se nas harmonias das brisas que passam pelas florestas , não solta o vôo e se arroja ao céu , embora o calor do sol lhe requeime as asas , precipitando-a num oceano , que é a dúvida !
Era poeta; posso confessá-lo agora que essa veleidade passou de uma feita e já agora não voltará mais .